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Mulheres negras têm o que comemorar no Dia Internacional da Mulher?

Atualizado: 14 de mar.


*Por Juliana Kaiser


Não, a mulher negra ainda não tem o que comemorar neste 8 de março do ano de 2023 no Brasil. E é preciso ter mais coragem do que já temos e um senso prático que chega a ser cruel para encarar os dados que continuam comprovando o que sentimos na pele, todos os dias nesse país. Não é necessário ir tão longe. Os resultados de um formulário sobre empregabilidade de mulheres negras que publiquei no meu Linkedin já me fizeram chorar há poucas semanas. Mais de 30% das mulheres relatam que o cabelo foi assunto de entrevistas de trabalho. Cerca de 50% das participantes da pesquisa que estavam em cargos de liderança foram confundidas com a "tia da limpeza". E tudo isso num cenário onde 84% são mulheres negras com pós-graduação.

Falo de um lugar muito privilegiado em comparação às minhas irmãs pretas e pobres. E vou elencar alguns dos meus cargos aqui porque, no caso de mulheres negras nessa sociedade em que vivemos, compartilhar conquistas também faz parte da luta, está longe de ser um exibicionismo vazio. Sofremos com muitos atravessamentos que atrasam demais nossa caminhada e é preciso mostrar, o tempo todo, que todas podem, apesar do esforço redobrado em relação às mulheres não negras.

Aos 19 anos fiz minha primeira viagem internacional e, desde então, parto para o exterior duas, três vezes por ano. É uma forma de ver o mundo de outro jeito, de sair um pouco daquilo que impõem às pessoas negras, de ficarmos sempre no mesmo lugar, de preferência quietinhas nos nossos bairros. Com certeza, as condições financeiras de que sempre dispus e a minha sede por conhecimento e igualdade me conduziram para a vida que tenho agora: uma mulher negra com carreira estabelecida, casada, mãe, educadora, gestora de projetos, professora no Instituto de Economia da UFRJ e no IAG PUC-Rio, além de palestrante de ESG e da igualdade racial no mundo corporativo. Recentemente, também assumi o cargo de Conselheira da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-RJ), onde tenho certeza que poderei contribuir com tudo o que trilhei até aqui e tudo o que ainda vem pela frente. A jornada está apenas começando e é trabalhosa, gente. Eu sei que a pele chega antes do currículo no mercado de trabalho. Temos mais dificuldade em saber quais são os lugares-chave para acessar e chegarmos onde queremos chegar, porque nosso networking é infinitamente menor do que das pessoas não negras, mesmo que tenhamos ascendido socialmente. Basta lembrar que a grande maioria das pessoas negras do Brasil mora em periferias, bolsões de pobreza e favelas. Conhecemos muita gente, mas, em geral, são pessoas que também estão na base da pirâmide, e não uma rede de relacionamento que pode nos ajudar a galgar posições estratégicas nas empresas, até porque a representatividade negra em cargos mais altos é ínfima. Isso torna ainda mais importante o apoio que pessoas não negras aliadas podem nos dar para que a gente cresça. Aproveito para tocar na questão da hierarquia da brancura no Brasil: quanto mais branca a pele, quanto mais europeu o fenótipo, mais competente julgam ser a pessoa. É a ideia do “cara de rico, cara de pobre”. De uma maneira geral, o que as pessoas negras emanam é a “cara de pobre” e, se em tese, quem é empobrecido é menos capaz numa sociedade como a nossa, racista e excludente, precisamos entregar muito mais do que uma pessoa branca, mesmo se ela for uma profissional medíocre.

Dando apenas uma pincelada na vida pessoal de mulheres negras, outro atravessamento é a energia que despendemos, por exemplo, em casamentos inter-raciais, ao sermos apresentada para a família, para os amigos. Há muita desconfiança do outro lado e tudo isso nos atrasa.


Enfim, tem sido duro, ao mesmo tempo importante perceber que temos um longo caminho pela frente. Só temos uma coisa a fazer: colocar a mão na massa. Nada blinda uma pessoa negra do racismo e tá tudo errado. A mulher negra ainda não tem o que comemorar neste 8 de março do ano de 2023 no Brasil.

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